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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aquele que excogitaste, Tu gerarás!

Segundo uma bela e tão razoável tradição, no momento em que a Santíssima Virgem, meditando na figura do Messias profetizado nas Sagradas Escrituras, completou a imagem que Ela deveria formar a respeito d’Ele, o Arcanjo São Gabriel Lhe apareceu.
Assim, a primeira tarefa de Nossa Senhora foi conceber em seu espírito como seria o Redentor.
Que santidade deveria ter a Virgem Maria para, com êxito, imaginar a fisionomia, o olhar, o timbre de voz, os gestos, o caminhar, o repouso do Filho de Deus!
E que alma era preciso ter para, depois disso, receber de Deus esta sentença: “Dedicaste a tua mente a desvendar este mistério, fizeste-o com tanto amor e tanto acerto que Eu Te digo: “Aquele que excogitaste, Tu gerarás!”
Prêmio maravilhoso, como nunca houve nem haverá igual na História!
Ele disse de Si mesmo àqueles que fossem fiéis: “Serei, Eu mesmo, a vossa recompensa demasiadamente grande” (cf. Gn 15, 1). Nosso Senhor Jesus Cristo é tão perfeito que até para Nossa Senhora Ele foi o prêmio demasiadamente grande.

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 2/2/1985

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A escravidão de amor à Mãe de Deus

Deus, Senhor absoluto de todas as suas criaturas, poderia ordenar pura e simplesmente. Mas não. Quis Ele depender do consentimento de Maria. A Redenção ficou, pois, pendente do amor d’Ela, da sua vontade, dos seus lábios virginais.
E esses lábios pronunciaram o “Sim!” que desencadeou o processo irreversível: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Tudo quanto veio depois, e ainda virá, é consequência desse “Faça-se”, inclusive a fundação da Igreja e sua trajetória ao longo dos séculos.
A escravidão de amor à Mãe de Deus
Dele decorre também o mais elevado título de Nossa Senhora: Mãe de Deus. A humilde Virgem Maria, cuja maior glória consistia em proclamar-se “escrava do Senhor”, gerou em suas virginais entranhas o Criador do universo!
Este é o motivo pelo qual a Igreja presta à Virgem Maria um culto superior ao de todos os Anjos e Santos juntos: porque Ela é Mãe de Deus.
Por isto São Luís Grignion de Montfort incentiva com ardor a devoção ao mistério da Encarnação, explicando ser esta uma devoção inspirada pelo Espírito Santo “para honrar e imitar a dependência em que Deus Filho quis estar de Maria, para glória de Deus seu Pai e para nossa Salvação”. E acrescenta: “Dependência que transparece particularmente neste mistério em que Jesus Cristo se torna cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, aí dependendo d’Ela em tudo”.1
Portanto, esse grande Santo não hesita em afirmar que o primeiro escravo da Mãe de Deus foi o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.
Qual terá sido o segundo? São João Evangelista? Não sabemos.
O fato é que milhares e milhares de fiéis ao longo dos séculos — entre os quais numerosos Santos — imitaram o exemplo de Jesus, consagrando-se à sua Santíssima Mãe como escravos de amor. E o Papa João Paulo II não perde oportunidade de incentivar com ardor e entusiasmo essa consagração, que ele próprio fez em sua juventude.
Consagrar-se a Maria como escravo de amor, este é o primeiro passo para tornar-se um devoto de Maria.
Qual é o nosso papel nesse episódio?
Desde toda a eternidade, Deus teve em mente criar a Virgem Maria para ser a Mãe do Redentor. Ele nada cria “por acaso”, ou “por distração”. Assim como Maria, todo ser humano — você também, leitor — tem uma missão pessoal a cumprir nesta terra.
Deus tem poder absoluto para obrigar cada homem a cumprir a finalidade para a qual foi criado. Ele, porém, não quer forçar nossa vontade. Quer nosso consentimento amoroso para a realização de seus divinos planos.
Coisa inefável e, ao mesmo tempo, terrível: nós temos a liberdade de dizer “sim” ou “não” a Deus! Os santos — no sentido amplo da palavra, ou seja, aqueles que estão no Céu — disseram “sim”, como Maria. Os condenados ao inferno disseram “não”, como Lúcifer.
Em qual dessas categorias estarei eu... estará você, leitor? No alto do Calvário, junto à Cruz, a Mãe das Dores foi solicitada a confirmar o “Fiat” proferido na Anunciação. E repetiu seu consentimento: morra meu Filho Divino, para redimir todos os homens. Nessa hora suprema, tinha Ela conhecimento de todas as almas que, até o último dia do mundo, seriam beneficiadas pela Redenção. Portanto, Ela pensou em mim, pensou em você também.
Pensemos, pois, n’Ela! E peçamos-Lhe que nos livre da desgraça de dizer “não” à voz da graça em nossa alma. Para nos atender, Ela só está à espera de nosso pedido.
1) Tratado da Verdadeira Devoção, nº 243.

sábado, 21 de abril de 2012

Escravidão de amor a Nossa Senhora

Em Maria e por Maria é que o Filho de Deus se fez homem para nossa salvação; desceu ao seu seio virginal, qual novo Adão no paraíso terrestre, para aí ter suas complacências; Deus feito homem, encontrou sua liberdade em se ver aprisionado no claustro da Virgem Mãe — afirma o grande São Luís Grignion de Montfort, estabelecendo os princípios de sua luminosa doutrina sobre escravidão de amor a Nossa Senhora.
Quem adere a essa devoção mariana proposta pelo Santo, torna-se um amoroso servo de Maria Santíssima. Segue, assim, o divino exemplo de  Jesus, Quem primeiro se submeteu inteiramente a Ela, durante os nove meses que  passou no imaculado claustro materno. Por ser o marco inicial dessa admirável dependência, podemos reflectir:
“Encarnando-se no seio de Maria, no momento da Anunciação, Jesus se deu a Ela  com um tal amanhecer de alma, com um espírito tão repleto de louçania, que não se  tem palavras para descrever a felicidade que nesse dia inundou a pessoa de Nossa Senhora! A geração da humanidade santíssima do Filho de Deus houve de ter sido a  maravilha das gerações!
“Conforme ensina São Luís Grignion, Jesus, considerado o novo Adão, veio ao  mundo para reparar o pecado cometido pelo primeiro homem. Ora, assim como este, enquanto permaneceu inocente, viveu em meio aos esplendores do Éden terrestre, também Nosso Senhor teve seu Paraíso — incomparavelmente melhor e mais precioso do que aquele — no ventre virginal de sua Mãe. Durante nove meses, esteve Ele  encerrado como num tabernáculo perfeitíssimo, onde encontrava alegrias, belezas e  delícias que excedem a qualquer concepção de nosso pobre intelecto. Além disso, numa inefável união de espíritos, o Filho ia revelando à Mãe, a respeito de si próprio, todas as magnificências que fossem cabíveis a uma criatura entender.
“Nesse indizível convívio, Jesus elevava a alma de Maria a um maravilhoso grau de  formosura, tornando-a mais bela e luminosa do que todo o resto do universo. Insondável intercâmbio de afetos, carinhos e atos de amor que teve início no instante do ‘fiat’ bendito. “No dia da Anunciação, com o ‘Sim!’ pronunciado pela Virgem de Nazaré, o Verbo  se fez carne e habitou entre nós.
“No dia da Anunciação, a Palavra de Deus raiou para o mundo, aureolada de promessas superlativas, de certeza das esperanças finalmente atendidas: nada menos que o resgate do gênero humano.”

sábado, 28 de janeiro de 2012

As promessas divinas se realizam em meio a aparentes desmentidos

Com a Anunciação, foi comunicada a Nossa Senhora, e através d’Ela a todo o gênero humano, a Encarnação do Verbo. Com o seu “Sim!”, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.
No dia da Anunciação, a Palavra de Deus raiou num amanhecer de alma repleto de louçania, com promessas superlativas.
Mas se as promessas de Deus suscitam as mais alegres esperanças, elas soem passar também por aparentes e terríveis desmentidos. É o modo de agir da Providência.
Nesse sentido, a Anunciação foi também a proclamação de que a autêntica glória não consiste em não sofrer humilhações e derrotas, mas, sim, em lutar pela Verdade.
A alma santíssima de Nossa Senhora, habituando-se às promessas, às alegrias e aos desmentidos, constitui para os católicos o sublime exemplo de submissão à vontade de Deus, manifestada por Ela, de modo inigualável, no humilde “fiat” que ecoou por toda a sua vida.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Anunciação do anjo a Nossa Senhora e a Encarnação do Verbo

Ideal de humildade e elevação
Em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Grignion de Montfort salienta que os devotos de Nossa Senhora terão especial apreço pelo Mistério da Encarnação, pois desta forma “imitam a dependência em que Deus Filho quis estar de Maria. Dependência que transparece particularmente nesse Mistério no qual Jesus Cristo se torna cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, aí dependendo d’Ela em tudo” (cap. 8, art. 1, § IV).
Devemos considerar que Jesus Cristo tornou-se Escravo de Nossa Senhora desde o momento em que Ela, diante do convite apresentado por São Gabriel, aceitou de dar à luz o Messias, e o Espírito Santo então concebeu em seu claustro materno o Verbo encarnado.
Elevada acima de todos os anjos e santos A Santíssima Virgem tornou-se, assim, Esposa do Divino Espírito Santo a um título muito particular, e passou a receber d’Ele orientações, diretrizes, atos de amor, de consolação, “flashes” (por assim dizer) de uma sublimidade indizível. Graças essas em estreita relação com os vínculos que o próprio Jesus, naquele seio puríssimo, mantinha com sua Mãe. Estabelecia-se, assim, um maravilhoso convívio no qual Nossa Senhora era, ao mesmo tempo, a Filha predileta do Pai Eterno, a Mãe admirável do Verbo humanado e a fidelíssima consorte do Espírito Santo.
Tudo isto foi concedido a Nossa Senhora em virtude do fato da Encarnação. Quer dizer, no instante em que Ela concebeu o divino Filho, tornou- se objeto dessa assombrosa promoção (se pudéssemos empregar o termo), por onde foi elevada a uma condição incomparavelmente superior à de todos os anjos e santos reunidos, o que significa uma perfeição tão imensa que escapa à nossa capacidade de imaginá-la.
O ideal de toda alma humilde
Porém, cumpre ressaltarmos essa verdade: se quisermos crescer na virtude, no amor a Deus, na devoção à Santíssima Virgem, devemos pedir a Nossa Senhora a graça de conhecer, intuir, avaliar tanto quanto é possível à debilidade do intelecto humano, a santidade d’Ela. Se assim o fizermos, cresceremos nós mesmos em santidade. E, portanto, em humildade, sem a qual não há autêntico progresso espiritual.
Para a alma humilde, disposta a obedecer seus legítimos superiores, afeita à admirar os que merecem admiração, amante da modéstia e da discrição, para essa alma, digo, o ideal nesta vida é fazer-se escrava de amor da Santíssima Virgem, imitando ao primeiro Escravo d’Ela, Jesus.
Ideal todo particular, pois é o de ser aos pés de Maria — conforme escreveu São Luís Grignion — um vermezinho e miserável pecador, a quem Deus dá a vida e a tira, concede saúde ou permite a doença. Somos completamente dependentes d’Ele, para tudo quanto de nós deseje.
Mas, que felicidade para nós ao pensarmos: “Somos tão minúsculos perto do Criador e, contudo, quanto mais reconhecemos nossa pequenez, mais nos unimos a Ele e mais Ele nos acolhe em seu Sagrado Coração!”
E assim, correspondendo a esse ideal de humildade, servidão e amor, estreitamos nossa união com Deus, com Maria e a Santa Igreja.
Como gota de orvalho transformada em sol
Pensemos nas glórias concedidas a Nossa Senhora, nos esplendores de perfeição aos quais Ela foi exaltada como Filha do Pai Eterno, Mãe do Verbo encarnado e Esposa do Espírito Santo.
Pensemos, igualmente, como dessas magníficas alturas Ela olha para nós e acompanha com incansável solicitude materna a vida de cada um de seus devotos. Estejamos certos de que a Virgem nos considera com bondade e insondável clemência; obtém-nos o perdão de nossas misérias e fraquezas; dirige, em nosso favor, um irresistível sorriso à Santíssima Trindade, dizendo: “Meu Pai, meu Filho, meu Esposo. Vejam estes que vos amam no mundo: tenham compaixão deles, ajudem-nos a serem inteiramente aquilo para o que foram criados a se tornarem fiéis como verdadeiros escravos de amor, fazendo sempre a minha vontade, que é a vossa, Trindade beatíssima.”
Essa é a mais valiosa graça que devemos suplicar a Deus, pelas mãos de Nossa Senhora. Tornarmo-nos esses servos amorosos e fiéis, imitadores de Jesus em sua obediência à Mãe, unidos à Santa Igreja a exemplo da própria Virgem Santíssima, de modo a sermos como ela, assim como a gota de orvalho sobre a qual incide o raio solar assemelha-se a um minúsculo sol.
A gota é linda, pura, encantadora. O raio do astro soberano que a toca, a faz brilhar inteira. Mas, o que é a gota em relação ao sol? Pois muito maior, a perder de vista, é a desproporção entre Nossa Senhora e cada um de nós. Porém, podemos e devemos pedir que, como gotas de orvalho, humildes e pequenos, puros e fortes, sejamos um reflexo d’Ela; e que do entusiasmo de nossa humildade, pureza e fortaleza emane um constante ato de amor, obediência e servidão à Rainha do Universo, à Mãe do Verbo de Deus feito carne.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A vida e as cogitações de Nossa Senhora em Nazaré

Nossa Senhora guardou as promessas do Anjo no interior de sua alma, e ao ver o Menino Jesus, segundo expressões do próprio Evangelho, crescer em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens, naturalmente pensava na missão que Lhe estava reservada.
Sabendo que seu Filho era Deus, Nossa Senhora julgava explicável que Ele obtivesse os êxitos mais retumbantes e extraordinários. E terá Ela pensado, ao ver Jesus se tornar moço, que em certo momento Ele sairia da casa paterna para dar cumprimento à sua missão?
Porém, essa hora ainda demoraria a chegar. Durante trinta anos, Ele quis viver apenas com Ela e São José. Ao que tudo indica, o chefe da Sagrada Família faleceu antes de Nosso Senhor começar sua vida pública. A tradição nos atesta que Nossa Senhora e Jesus estavam presentes à cabeceira de São José no momento de ele exalar seu derradeiro suspiro: razão pela qual, o grande Patriarca é também o padroeiro da boa morte.
Como gostaríamos de assistir essa cena! Um leito pobre, Nossa Senhora de um lado, e de outro, Nosso Senhor, atraindo para Si a atenção de Maria e a do moribundo, aos quais dirigia sublimes palavras de conforto. Nossa Senhora, com sua insondável solicitude, servia a São José, orando por ele e também o consolando... Que revoada de Anjos!
Em certo momento, as sombras da morte se tornam mais próximas. São José começa a notar que aquele convívio, para ele até certo ponto um Céu, iria cessar. Mas, de outro lado, sabia que lhe aguardava uma gratíssima missão: chegando ao Limbo dos Patriarcas, anunciaria que o Messias se tinha encarnado no seio da Virgem Maria. Provavelmente, só com a menção dos nomes de Jesus e de Maria aquele lugar inteiro se teria iluminado...
Após a morte de São José, Nossa Senhora terá pensado a respeito de Jesus:
“Quando começará Ele sua vida pública, e cessará nosso convívio? Com quem ficarei? Que notícias terei d’Ele? Quando terá início o seu Reino? Assistirei a implantação dele, estando ainda na Terra ou já no Céu?
“Inúmeras vezes, conversando com Ele, notei que sua fisionomia foi se tornando mais tristonha. E na medida em que a tristeza pode ser comparada a uma sombra, foi se tornando sombria. Ele me tem falado de um imenso sacrifício que deve padecer. Sei que é a morte de Cruz, à qual se referem as Escrituras, e que Ele mesmo já me anunciou. Vejo-me, de um lado, cercada de esplendor, e de outro, da perspectiva do fracasso tenebroso.”
 Passam-se os dias, os meses e os anos... Trinta anos viveu Jesus sob o mesmo teto com Ela, adornando sua alma com maravilhas cada vez maiores.
Um dia — pode-se conjeturar — Ele se aproxima d’Ela e, com veneração e carinho ainda mais intensos, envolvendo-A com o olhar, Lhe diz: “Minha Mãe, chegou o momento!”
Talvez tivesse dito isso com um sorriso cheio de saudades, mas saudades antecipadas, cheias de sorriso. Era a missão d’Ele que ia começar e desfecharia na sua glória.
Ele sabia que, essencialmente, caminharia em direção à Cruz. Mas nesse percurso recrutaria os Apóstolos, os discípulos e todos os elementos da Igreja nascente. Pregaria durante três anos sua maravilhosa doutrina, praticaria milagres que haveriam de impressionar e persuadir o mundo inteiro, fundaria a Igreja, instituiria os Sacramentos. E depois morreria...
O que Mãe e Filho se terão dito nessa despedida? Terá sido uma surpresa que durou um minuto? Ou Ele A avisou com um mês de antecedência?
Nessa hipótese, para Nossa Senhora esse mês terá parecido um minuto, porque Ela quisera uma despedida muito mais prolongada?
São maravilhas que nos serão reveladas no Céu, e diante das quais não teremos palavras para manifestar nossa veneração e adoração.
Após Nosso Senhor ter iniciado sua vida pública, Nossa Senhora é procurada pelas santas mulheres e se incorpora a essa família de almas cujos cuidados Jesus Lhe confia.
“Conversas” de Nossa Senhora com o Espírito Santo
Todas essas considerações nos parecem de extrema beleza. Porém, como são restritas diante de realidades ainda mais altas!
Sabemos, por exemplo, que Nossa Senhora é a Esposa do Divino Espírito Santo. Quantas graças a Terceira Pessoa da Santíssima Trinidade Lhe concedia, para que conhecesse e meditasse em tudo quanto acontecia?
Quantas perguntas não terá feito ao Divino Consorte, dirigindo-se a Ele com as palavras: “Meu Rei, meu Senhor e meu Esposo”?
Se o relacionamento d’Ela com seu marido segundo a lei, São José, era tão bonito e tocante, como não terá sido com o Divino Espírito Santo?
Por exemplo, no momento da Encarnação, Ele se tornou Esposo d’Ela. Ora, no ato dos desponsórios, o homem oferece à sua mulher um presente magnífico. Que dádiva extraordinária o Divino Espírito Santo terá concedido a Maria? Que graças? Que esplendores? Tal escapa à nossa pobre imaginação...
Esperanças e apreensões de Nossa Senhora
Durante a vida pública, ao contemplar as pregações e milagres de Nosso Senhor, parecia a Nossa Senhora que a promessa da glória estava se realizando. Mas, de outro lado, com seu discernimento dos espíritos incomparável, Maria Santíssima percebia que Satanás rondava pelo ambiente, e sentia o ódio que ele incutia em algumas almas.
Pensemos noutra circunstância. Como diz São Tomás de Aquino em seu belíssimo hino eucarístico Lauda Sion: In suprema nocte cenæ, na última noite da ceia, véspera da Paixão, recumbens cum fratribus, estando sentado com os irmãos, que são os Apóstolos, Nosso Senhor celebrou a primeira Missa.
Provavelmente, Nossa Senhora se encontrava no Cenáculo, e recebeu também a Comunhão. Que maravilha não terá sido a Primeira Comunhão de Nossa Senhora! Mas, Ela ouviu igualmente a terrível profecia: “Um de vós há de Me trair”. Viu Judas sair de modo apressado do Cenáculo, com essa intenção. O Evangelho narra a cena de modo tocante, com palavras que têm um caráter muito simbólico: “Fora, era noite...”
Ela viu Nosso Senhor sair em seguida. Talvez Ele tenha se despedido d’Ela. Ter-Lhe-á dito que era chegada sua hora, ou A deixou na dúvida?
Ele e os discípulos se retiraram depois de terem cantado um hino pascal, e penetraram naquela mesma noite, na qual ecoavam os passos de Judas.
O que terá acontecido com Nossa Senhora nos instantes seguintes?
Provavelmente, o fundo de quadro da meditação d’Ela eram as promessas de triunfo recebidas na Anunciação.
Porém, havia o preço da glória, não mencionado pelo Arcanjo naquele jubiloso encontro, e esse preço era a dor.
Pensemos, então, na Virgem Dolorosa, na hora mais terrível da Paixão, no meu entender o momento em que Nosso Senhor exclamou em altos brados: “Meu Pai, Meu Pai, por que Me abandonastes?”
É um brado de sofrimento e de dilaceração, mas são também as palavras iniciais de um Salmo cujo triunfante tom final parece prenunciar a Ressurreição.
Que sentimentos terão ido na alma santíssima de Maria, ao ouvir esse clamor de Jesus?
Por outra parte, Ela vislumbrou, antes da morte d’Ele, o primeiro clarão de alegria, quando O ouviu dizer ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
Essa afirmação significava que Nosso Senhor nunca perdeu de vistas, mesmo em meio às dores mais lancinantes, que Ele estava assim abrindo para a humanidade as portas do Céu.
As promessas divinas se realizam em meio a aparentes desmentidos
Das presentes reflexões nos é dado tirar uma conclusão que pode ser resumida em poucas palavras.
Com a Anunciação, foi comunicada a Nossa Senhora, e através d’Ela a todo o gênero humano, a Encarnação do Verbo. Com o seu “Sim!”, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.
No dia da Anunciação, a Palavra de Deus raiou num amanhecer de alma repleto de louçania, com promessas superlativas.
Mas se as promessas de Deus suscitam as mais alegres esperanças, elas soem passar também por aparentes e terríveis desmentidos. É o modo de agir da Providência.
Nesse sentido, a Anunciação foi também a proclamação de que a autêntica glória não consiste em não sofrer humilhações e derrotas, mas, sim, em lutar pela Verdade.
A alma santíssima de Nossa Senhora, habituando-se às promessas, às alegrias e aos desmentidos, constitui para os católicos o sublime exemplo de submissão à vontade de Deus, manifestada por Ela, de modo inigualável, no humilde “fiat” que ecoou por toda a sua vida.