sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Auxílio dos pequeninos


Nossa Senhora Auxiliadora Se apresenta a nós com o Menino Jesus no braço para indicar a relação materna que Ela tem com o Divino Infante. Relação de intimidade absoluta, com a disposição de atender as últimas e menores dificuldades de uma criança, com aquele afeto, aquela bondade que se tem para com o pequenino e o fraco.
Maria Santíssima é também a Mãe do Corpo Místico de Cristo e, portanto, de todos os cristãos. Em relação a cada um de nós, a posição d’Ela é de querer que sejamos como o filho carregado no colo a quem Ela dá muito mais do que pede, e até mesmo o que ele não sabe pedir.
Mas a condição para receber é pedir com essa intimidade e a certeza de ser atendido, como uma criança de colo. A esse título, Ela nos auxilia com aquela multidão de auxílios dados aos pequenos.
O maior dos auxílios que Nossa Senhora pode nos conceder é nos comunicar seu espírito de santidade, sua autenticidade de virtudes, sua força e a vitória contra o demônio.
Plinio Corrêa de Oliveira - Extraído de conferência de 23/5/1966

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Coração Sapiencial e Imaculado de Maria



O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira assim nos apresenta a sabedoria da Santíssima Virgem: “O que vem a ser a sapiencialidade do Coração de Maria? “A sabedoria é um dom do Espírito Santo que, agindo sobre a inteligência, nos faz ver todas as coisas pelos seus aspectos mais elevados; aquilo por onde elas mais se assemelham a Deus Nosso Senhor, Ser absoluto, infinito, perfeito e eterno, que jamais poderá sofrer nenhuma alteração. “Considerando assim o universo, a mente humana adquire uma admirável unidade e uma extraordinária coerência: nada de contradição, de dilaceração ou de hesitação, mas certeza, fé, convicção, firmeza desde os mais altos princípios até às menores coisas. “Esta é a fisionomia moral do varão verdadeiramente católico: coerente em tudo, porque tudo nele provém das mais altas cogitações do espírito, isto é, daquelas que se ancoram em Deus Nosso Senhor. “A sabedoria, enquanto agindo sobre a vontade, nos dispõe a fazer, inabalável e firmemente, aquilo que é nosso dever. “Assim, a inteligência, soberanamente límpida e lúcida, porque cheia de convicção da existência de Deus, torna-se sumamente coerente. Por sua vez, a vontade forte e firme, volta-se constantemente para o fim que ela deve ter em vista. Eis, pois, o homem sapiencial. “Este dom da sabedoria alimenta todas as virtudes e ancora a alma no primeiro mandamento da lei de Deus. Quando o decálogo nos diz: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento» (Dt. VI, 5), ele nos prescreve sermos assim. “E tal é Nossa Senhora. “O coração de Maria Santíssima (quer dizer, sua alma) é soberanamente elevado, soberanamente grande, soberanamente sério, soberanamente profundo, porque sapiencial. “Ela é o vaso de eleição no qual pousou o Espírito Santo, para nele gerar a Nosso Senhor Jesus Cristo. E o único hino que conhecemos como proferido por Nossa Senhora em sua vida terrena, é uma verdadeira maravilha de sabedoria: o Magnificat. “«Minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus meu Criador; porque considerou a humildade de sua serva, por isso todas as gerações me chamarão bemaventurada» (Lc. I, 47-48). “Quanto é possível a uma mente criada, Nossa Senhora mediu, por sua sabedoria, toda a grandeza de Deus, e nisto se alegrou. De outro lado, considerou sua pequenez, e então disse: «Eu me alegro em Deus meu Salvador, porque Ele olhou para a baixeza de sua escrava». “Isto é um poema de Contra-Revolução! É a escrava que se encanta de ser escrava, de ser pequena, de ver como Deus é infinitamente superior a Ela, e do fundo de seu nada glorifica o Senhor. “É o pequeno que reconhece, com agrado, a sua posição. O escravo não tem direitos, e está colocado abaixo da condição comum dos homens. Pois bem, Nossa Senhora se proclama escrava de Nosso Senhor Jesus Cristo, precursora de todos os escravos de amor que Ela iria ter ao longo dos séculos. “E foi sobre a humildade desta criatura escrava que aprouve ao Senhor deitar os olhos e, por isso, Ela exulta: a grandeza amou a pequenez. “Isto é profundamente contra-revolucionário. Eis a verdadeira humildade que ama seu lugar inferior, adorando a grandeza que a eleva. Eis o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.”
Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferências em 21/8/68. (Arquivo pessoal) In: Pequeno Ofício da Imaculada. Mons. João Clá Dias

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Necessidade de misericórdia

O pórtico de nossa devoção a Nossa Senhora é justamente esta constatação da verdadeira necessidade que temos de misericórdia. Não de uma necessidade qualquer, mas de uma necessidade contínua e completa. É a compreensão de que, a não ser por uma bondade inteiramente materna e completamente gratuita, nós não nos arranjamos.

Devemos continuamente recorrer a Ela. Mas recorrer como mendigos, de joelhos em terra, de chapéu na mão, batendo no peito, e entendendo que não temos direito à sua misericórdia. Aí, sim, Nossa Senhora se faz toda doçura para nós, toda suavidade, toda paciência, até para as coisas mais descabidas.
Plinio Corrêa de Oliveira

domingo, 28 de maio de 2017

Visitação de Nossa Senhora à sua prima

Ó Mãe Santíssima, neste versículo do Evangelho: "Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia, vimos o quanto Vós sois para nós um exemplo. Vós, ó Mãe minha, vos pusestes a caminho com toda a diligência, sendo que, todas as comodidades Vos convidavam a ficar em casa, isso muito especialmente pelo fato de ser a Mãe de Deus e estar com o próprio Deus Nosso Senhor em seu interior. Vós podíeis perfeitamente ficar na segurança do lar, entretanto vos apressastes em ir ter com aquela que seria a mãe de São João Batista. 

   Minha Mãe, dai-me a graça de nunca ser lento em atender as inspirações de Deus, sobretudo, se bem que isto nunca se tenha dado convosco, mas dá-se muito frequentemente conosco, especialmente quando algum pecado, alguma ocasião próxima, alguma relação de amizade nos afasta do bom caminho. Portanto, quando receber um toque de minha consciência, ou um toque da graça, ou mesmo uma inspiração obtida por Vós a fim de me ajudar, que eu obedeça prontamente à Vossa vontade.

Meditação do Mons.João S.Clá Dias.- Catedral da Sé, 1º de janeiro de 2005 – sem revisão do autor

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Progredir na prática da virtude

Na consideração do empenho de Deus em proporcionar-nos tantos meios para nossa salvação, devemos robustecer nossa resolução de combater os próprios defeitos e progredir na prática da virtude. Sempre por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, aproximemo-nos cada vez mais dos Sacramentos, verdadeiras maravilhas postas por Deus à disposição de todos aqueles que desejam a salvação.

Mons João Clá Dias – O Inédito sobre os Evangelhos

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Se hoje ouvirdes Sua voz


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aquele que excogitaste, Tu gerarás!

Segundo uma bela e tão razoável tradição, no momento em que a Santíssima Virgem, meditando na figura do Messias profetizado nas Sagradas Escrituras, completou a imagem que Ela deveria formar a respeito d’Ele, o Arcanjo São Gabriel Lhe apareceu.
Assim, a primeira tarefa de Nossa Senhora foi conceber em seu espírito como seria o Redentor.
Que santidade deveria ter a Virgem Maria para, com êxito, imaginar a fisionomia, o olhar, o timbre de voz, os gestos, o caminhar, o repouso do Filho de Deus!
E que alma era preciso ter para, depois disso, receber de Deus esta sentença: “Dedicaste a tua mente a desvendar este mistério, fizeste-o com tanto amor e tanto acerto que Eu Te digo: “Aquele que excogitaste, Tu gerarás!”
Prêmio maravilhoso, como nunca houve nem haverá igual na História!
Ele disse de Si mesmo àqueles que fossem fiéis: “Serei, Eu mesmo, a vossa recompensa demasiadamente grande” (cf. Gn 15, 1). Nosso Senhor Jesus Cristo é tão perfeito que até para Nossa Senhora Ele foi o prêmio demasiadamente grande.

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 2/2/1985

domingo, 14 de maio de 2017

Na Fronteira da História - 100 anos Fátima

No dia 13 deste mês de maio, teremos finalmente chegado ao centésimo aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora em Fátima, data tão esperada por nós, tendo em vista que a mensagem ali revelada fundamenta uma especial esperança para a humanidade, frente ao processo histórico de que foi objeto ao longo de sete mil anos.
Com efeito, as palavras da Senhora aos três pastorinhos convidam a elevar nossas vistas - viciadas por um mundo materialista, mecanizado e despojado de religiosidade - para considerarmos novos horizontes: os do Reino de Maria que nasce, cuja aurora começa a tingir de dourado alguns cumes de montanha, prenunciando o meio-dia prometido.
Sob o soberano e grandioso olhar de Deus, a História da humanidade forma um só grande conjunto que abarca o passado mais remoto, um presente assaz conturbado, e o futuro mais distante. Assim sendo, a mensagem de Fátima, ditada por ocasião das várias aparições de Nossa Senhora, deve ser avaliada por nós em função da visão global de todos os séculos, que se desenrola aos pés de Jesus e cuja maravilhosa trama coloca em irreconciliável oposição os Anjos e os demônios, os Santos e os precitos, os profetas de Deus e os de satanás.
Embora prometida no Protoevangelho (cf. Gn 3, 15), e apesar de terem acontecido muitos episódios prefigurativos ao longo dos tempos, ainda não se deu a plenitude do embate entre a cabeça da Serpente e o calcanhar da Virgem. Contudo, vemos hoje as potencialidades, ou capacidades de ação, se multiplicarem e se acumularem em ambos os lados de tal forma que podemos com toda propriedade afirmar que nossa época traz perspectivas verdadeiramente apocalípticas.
Ora, o Apocalipse muitas vezes é apresentado exclusiva e unilateralmente como sendo um elenco de dramas sucessivos, desastrosos para tudo e para todos... e isto lhe tolhe seu principal significado: uma bela liturgia - realizada de comum acordo entre os Anjos e os justos, sob o comando do próprio Cordeiro Imolado - mediante a qual Deus vinga sua honra, restabelece a justiça e instaura seu reino de paz; a paz de Jesus Cristo e de Maria, a única verdadeira e realmente estável.
Com efeito, se considerarmos os sete mil anos de acontecimentos dos homens na terra, veremos que, infelizmente, ao lado de fatos sem dúvida muito belos, a Santíssima Trindade deixou muitíssimas vezes o demônio interferir nos planos divinos, interrompe-los e deturpá-los conforme melhor lhe aprouvesse. Isto mudará em breve, assumindo Deus o comando da História, assim como o anunciaram todos os profetas, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
Neste sentido, as profecias do segredo de Fátima possuem um profundo significado, pois constituem o último elo de uma corrente que liga o Céu à terra, e cuja realização marcará um antes e um depois nas relações entre Deus e os homens, por meio de graças imprevisíveis e até mesmo inimagináveis. Estamos agora, portanto, à beira de uma nova fronteira da História.
 Revista Arautos do Evangelho Maio 2017

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Por que Rosário?

Certo dia, estava Santo Afonso Rodrigues rezando o Rosário. Os monges, reunidos por trás da porta, olhavam-no extasiados. A cada Ave-Maria que ele rezava, saia de sua boca uma rosa branca que subia aos céus e a cada Padre-nosso, uma rosa vermelha.
Conta-se também, que um noviço franciscano, tinha o costume de sempre rezar o Rosário. Certo dia, porém, devido às ocupações que o superior lhe havia ordenado, chegou a hora do jantar e ele ainda não havia terminado de rezar. Pediu então licença ao superior para retirar-se da mesa a fim de fazê-lo.
Porém, passou-se mais de uma hora e o noviço não voltava. Preocupado com que algo pudesse ter acontecido, o superior mandou um monge verificar o fato. Ao abrir a porta da capela, o monge a viu iluminada com celestes resplendores e a Santíssima Virgem, com dois Anjos, perto dele. À medida em que o noviço dizia uma Ave-Maria, uma rosa branca saia de sua boca e os anjos as colhiam e colocavam na coroa da Santíssima Virgem, que lhes demonstrava seu contentamento, e a cada Padre-nosso, era uma rosa vermelha que formava a cora de Nossa Senhora. O segundo religioso ali ficou e pela demora, o superior mandou mais dois monges para chamá-los e também os dois viram o milagre.

Por isso chama-se Rosário a esta oração.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Pondo em prática os pedidos de Nossa Senhora

Há 100 anos Nossa Senhora disse: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!" Como se dará a vitória final sobre o pecado? Não se pode saber ao certo, mas podemos concluir que aos que porem em prática os pedidos feitos por Nossa Senhora estes se salvarão e alcançarão a paz.

Assista aos comentários de Mons João Clá Dias.



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Mês de Maria

“No mês de maio - mês de Maria - sente-se uma proteção especial de Nossa Senhora estender-se sobre todos os fiéis, e uma alegria que brilha e ilumina nossos corações, exprimindo a universal certeza dos católicos de que o indispensável patrocínio de nossa Mãe celestial se torna, durante esse período, ainda mais solícito, mais amoroso, mais cheio de visível misericórdia e exorável condescendência.”

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O Jogral de Nossa Senhora

Havia em França, nos tempos do Rei São Luís (1214 - 1270), um pobre truão, natural de Compiègne, chamado Barnabé,  que  ia  de  terra  em  terra  fazendo exercícios de equilíbrio e habilidade.
Nos dias de feira estendia na praça pública um velho tapete muito surrado e depois de ter atraído as crianças e os curiosos com as suas momices aprendidas de um velho saltimbanco, tomava atitudes surpreendentes e sustentava um prato em equilíbrio sobre o nariz.
A multidão olhava-o a princípio com indiferença; mas quando, apoiando-se em ambas as mãos, de cabeça para baixo, lançava ao ar e amparava com os pés seis bolas de cobre, que faiscavam aos raios do sol, ou quando, unindo os calcanhares à nuca, dava ao corpo a forma perfeita de uma roda, e jogava com doze facas nessa posição difícil, elevava-se no público um murmúrio de admiração e as moedas choviam aos montes sobre o arruinado tapete.
Contudo, como a maior parte dos que vivem dos seus talentos, Barnabé de Compiègne passava medianamente.
Ganhando o pão com o suor do seu rosto, partilhava em excesso das misérias provenientes do pecado de nosso pai Adão. 
Além disso, não lhe era possível trabalhar tanto quanto queria. Assim como as árvores para produzirem frutos e flores, Barnabé necessitava do calor do sol e da luz do dia para demonstrar as suas excelentes faculdades. Durante o inverno era uma árvore sem folhas, quase seca. A terra gelada era muito dura para o infeliz saltimbanco, que  tinha fome e frio na má estação, mas suportava os seus males com paciência e ânimo alegre.
Nunca meditara sobre a origem das riquezas e da desigualdade entre as classes humanas. Acreditava cegamente que se este mundo era ruim, o outro não podia deixar de ser bom, e esta esperança o sustentava. Não imitava os de mau comportamento, malfeitores ou descrentes que vendiam a sua alma ao diabo. Nunca blasfemava do nome de Deus e vivia muito honestamente.
Era um homem de bem, temente a Deus e muito devoto da Santíssima Virgem Maria. Quando entrava numa Igreja, nunca deixava de ajoelhar-se ante a imagem da Mãe de Deus e dirigir-lhe esta oração:
"Senhora, cuidai da minha vida até à hora de minha morte; e depois de eu morrer fazei-me desfrutar as delícias do Paraíso."
Um feliz encontro
Ao escurecer de um dia chuvoso, Barnabé caminhava triste e curvado, levando debaixo do braço as suas seis bolas de cobre e a sua dúzia de facas, embrulhadas no velho tapete, em busca de um albergue onde pudesse dormir, quando esbarrou com um frade que seguia o mesmo caminho e a quem saudou cortesmente.
O frade estranhou um pouco a figura de Barnabé e perguntou:
– Amigo, por que andais vestido de verde dos pés à cabeça? Será talvez para representardes um papel em alguma peça misteriosa?
– Não, meu padre. Sou saltimbanco de profissão e chamo-me Barnabé. O meu ofício seria o mais belo do mundo se desse para comer todos os dias...
– Ora, ora Barnabé, cuidado com o que dizes! Não há estado mais feliz que o monástico! Nele celebram-se as grandezas de Deus, da Virgem Maria e dos Santos! A vida do religioso é um perpétuo cântico ao Senhor!
B Meu padre, confesso que falei como ignorante. A vossa profissão não se pode comparar à minha, e embora tenha certo valor o bailar sustentando na ponta do nariz uma moeda em equilíbrio sobre um pau, este valor fica a mais de cem metros abaixo do vosso! Bem quisera eu, como vós, meu padre, cantar diariamente os ofícios, e muito especialmente o da Santíssima Virgem, por quem sinto particular devoção. De boa vontade renunciaria à arte em que sou tão vantajosamente conhecido desde Soissons até Beauvais, em mais de seiscentas vilas e aldeias, para abraçar a vida monástica!
Ficou o monge encantado com o discurso arrazoado do saltimbanco, e como tinha muita experiência, reconheceu em Barnabé um daqueles de quem Nosso Senhor dissera: "Paz na terra aos homens de boa vontade!" E assim lhe respondeu:
B Amigo Barnabé, vinde comigo, e eu vos farei entrar no convento do qual sou prior. O Senhor Deus me colocou no vosso caminho para vos conduzir pela estrada da salvação!
E desta forma se fez monge Barnabé.
 O Monge Barnabé
No convento onde foi recebido, os religiosos celebravam à porfia o culto da Santa Virgem, e cada qual empregava em servi-la todo o talento e habilidade que Deus lhe concedera.
O prior, pela sua parte, escrevia livros que tratavam das virtudes da Mãe de Deus.
Copiava-os sobre folhas de pergaminho a mão habilíssima do irmão Maurício.
O irmão Alexandre iluminava-os com delicadas miniaturas. Nelas se via a Rainhado Céu, sentada num trono, a cujos pés velavam quatro leões, e em volta da sua cabeça esvoaçavam sete pombas representando os sete dons do Espírito Santo: a Sabedoria, o Entendimento, o Conselho, a Fortaleza, a Ciência, a Piedade e o Temor de Deus. Acompanhavam-na seis virgens de cabelos de ouro: a humildade, a prudência, o recolhimento, o respeito, a castidade e a obediência.
O irmão Marbódio era igualmente um dos ternos filhos de Maria. Talhava sem cessar esculturas de pedra, e por isso trazia a barba, as sobrancelhas e os cabelos brancos de pó. Sempre estava cheio de vigor e alegria na sua avançada idade, e visivelmente a Rainha do Paraíso protegia o envelhecer do seu bom devoto.
Marbódio representava-a numa banqueta sobre um estrado, com a fronte cercada por uma auréola.
Havia também no convento poetas que escreviam hinos em latim, em honra da Bem-aventurada Virgem Maria, e até Picardo que narrava os milagres de Nossa Senhora em língua vulgar e versos rimados.
Ao ver tal concurso de celebração e tão excelente colheita de obras, Barnabé lamentava a sua ignorância e simplicidade.
– Ai de mim! – suspirava, passeando isolado pelo jardinzinho sem sombra do convento. Que infeliz eu sou por não poder, como os meus irmãos, reverenciar dignamente a Mãe de Deus, a quem consagrei a ternura de meu coração! Ai de mim! Ai de mim! Sou um homem rude e sem arte, que não tem para pôr ao serviço da Santíssima Virgem nem sermões edificantes, nem tratados bem expostos segundo as regras, nem finas pinturas, nem estátuas perfeitamente esculpidas, nem versos contados e divididos em cadências. Pobre de mim, que não sei fazer nada disto...
Assim gemia Barnabé, entregando-se a uma profunda e perigosa tristeza!
Numa tarde em que os frades se recreavam conversando, ouviu contar a um deles a história de certo religioso que sabia apenas dizer a "Ave Maria". Este religioso era desprezado pela sua ignorância; porém, quando morreu, nasceram de sua boca cinco lírios em louvor das cinco letras do nome de Maria, e assim foi revelada a sua santidade!
Ao ouvir aquela narrativa, Barnabé admirou mais uma vez a bondade da Virgem; mas nem por isso ficou consolado, pois era grande o seu desejo de glorificar a sua Senhora que está nos céus.
Procurava um meio, sem conseguir achá-lo, e cada dia se mostrava mais mortificado, até que, tendo acordado certa manhã muito alegre, correu à capela e ali permaneceu sozinho por espaço de mais de uma hora. E pela tarde voltou lá.
Desde então, ia todos os dias à capela nas horas em que a achava deserta, passando ali boa parte do tempo que os outros monges consagravam ao exercício das artes mecânicas e liberais.
Desde então, não andava triste, nem suspirava. Tão singular proceder despertou a curiosidade dos monges. A comunidade começou a se interrogar sobre o motivo a que obedeceriam os freqüentes desaparecimentos do irmão Barnabé.
O Prior, que tinha por dever não ignorar coisa alguma que dissesse respeito ao procedimento dos seus religiosos, resolveu observar Barnabé nos seus isolamentos. E assim, certo dia em que este se tinha encerrado na capela, como de costume, o prior, acompanhado por dois frades mais velhos, foi espreitar por uma brecha da porta o que se passava lá dentro.
Viram Barnabé de cabeça para baixo, diante do altar da Santíssima Virgem, jogando com seis bolas e doze facas, ao mesmo tempo!
Fazia, em louvor da Santa Mãe de Deus, os exercícios que lhe tinham granjeado maior número de aplausos, e outros ainda que nunca havia feito até então.
Não compreendendo que aquele homem simples punha assim ao serviço da Virgem o seu talento e a sua arte, os dois frades mais velhos acusaram-no de sacrilégio e que estava tomado por um espírito mau.
Sabendo o Prior que Barnabé tinha a alma inocente, considerou-o atacado de demência.
Dispunham-se os três frades a expulsá-lo violentamente da capela, quando viram a Santíssima Virgem sorrir muito comprazida para Barnabé!
Então, o Prior, curvando a cabeça até juntar o rosto ao chão, disse estas palavras:
– Bem-aventurados os que tem o coração puro, porque deles é o Reino dos Céus!

– Amém! B responderam os anciãos osculando a terra.