terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Perfeições da Virgem-Mãe, belezas da Igreja

Nossa Senhora é a imagem perfeita da Igreja Católica. Esta afirmação de Santo Agostinho será agora comentada.
A propósito da festa de Nossa Senhora das Mercês, gostaria de fazer alguns comentários sobre um trecho de Santo Agostinho. O grande Bispo de Hipona se dirige à Santíssima Virgem neste belíssimo louvor:
Ó Maria, cumpristes perfeitamente a vontade do Pai Celeste. Vossa maior honra, vossa maior felicidade não foi de ter sido a Mãe, mas a discípula de Cristo. Bem-aventurada sois por terdes ouvido o Verbo de Deus e conservado (suas palavras) em vosso coração. Vós guardastes a verdade de Cristo em vossa inteligência, mais ainda que sua carne em vosso seio. Não se saberia comparar-Vos às mulheres do Antigo Testamento, a Ana, a Suzana. A que alturas não Vos elevastes acima delas? Aqui ainda não falamos na santa virgindade, mas em vossas outras virtudes: ó Maria, há no mundo alguém que as ignore?
Para exemplo e ensinamento para todas as mulheres convém somente não esquecer vossa santa e admirável modéstia. Vós fostes julgada digna de conceber o filho do Altíssimo e, entretanto, permanecestes a mais humilde de todas as criaturas; porque fizestes sem cessar a vontade de Deus, sois segundo a carne e o espírito, a Mãe de Cristo, sua Mãe e sua irmã, mulher única, mãe e virgem, e Vós o sois corporalmente e espiritualmente.
Mãe de nosso Chefe, que é o Salvador, Vós sois também e perfeitamente mãe de todos os membros de Cristo, porque cooperastes, por vossa caridade, para o nascimento dos fiéis na Igreja.
Única entre todas as mulheres sois, ainda uma vez, mãe e virgem. Mãe de Cristo e virgem de Cristo. Foi por Vós, ó Mãe do Senhor, que a dignidade virginal começou (a florescer) sobre a terra. Por Vós, ó Maria, que merecestes ter um filho, mas que o merecestes sem deixar de ser virgem. Para honra do Salvador Jesus, o pecado não se aproximou de Vós. Sabemos que para vencer o pecado e o vencer inteiramente foi dada graça abundante Àquela que foi digna de conceber e de cuidar do Impecável.
A beleza e a dignidade da terra sois Vós, ó Virgem, que fostes sem cessar a imagem da Santa Igreja. Por uma mulher, a morte; por uma mulher, a vida. E esta última sois Vós, ó Mãe de Deus.
Assim como Maria, a Igreja é Virgem e Mãe
É um lindo trecho de Santo Agostinho, talvez num estilo não inteiramente acessível às novas gerações. Por outro lado, seria muito ingrato dessorarmos o santo Autor, tirando o pensamento dele de dentro das palavras majestosas que ele escreveu.
De maneira que me parece suficiente, para aproveitarmos bem esta passagem, compreendermos um pouco a frase final dele, quando fala que Nossa Senhora é a imagem perfeita da Igreja Católica. Procuremos, então, analisar em que sentido a Igreja é virgem e é mãe, e de que modo ela é, por sua vez, imagem de Nossa Senhora.
A Igreja é virgem nessa acepção da palavra de que ela é de uma santidade absoluta, sem nenhuma forma de condescendência com o erro nem com o mal. Nela não existe qualquer espécie de mácula. Ela é, portanto, intacta como uma virgem.
De outra parte, ela é mãe porque todos os homens nascem para a vida espiritual de dentro da Igreja, são engendrados por ela para a existência cristã. Se não fosse a Igreja, nenhum homem poderia salvar-se. E ela procede como mãe em relação aos filhos, os nutre com os Sacramentos, com a vida sobrenatural da graça; ela os ensina por meio do Magistério infalível; ela os guia através da autoridade da hierarquia eclesiástica, de maneira tal que ela exerce, em relação a cada homem, a cada um dos católicos, todos os ofícios e todos os misteres que a mãe exerce em relação ao filho.
Esse paralelo se torna ainda mais esplendoroso quando podemos dizer, a exemplo de Nossa Senhora, que ninguém é mais virgem do que a Igreja, e ninguém é mais mãe do que a Esposa Mística de Cristo.
Tomem-se todas as instituições e todas as mães da terra, e nenhuma teve nem terá uma maternidade mais copiosa do que a Santa Igreja. Desde o momento em que ela foi fundada, até o fim do mundo, todos os homens que se salvarem serão gerados nela e será ela que os conduzirá à vida eterna.
Aceitar ou recusar a Fé, salvar-se ou condenar-se
Naturalmente, haverá pessoas que se salvarão sem serem católicas. São aquelas que não tiveram oportunidade de conhecer a Igreja, porque viveram em regiões longínquas, porque nunca ouviram falar dela, etc., e não puderam adivinhar que a Igreja Católica existia.
Porém, Santo Tomás de Aquino ensina que, antes de essas pessoas morrerem, elas recebem de algum modo — quiçá por seus Anjos da Guarda — a revelação sobre os mistérios essenciais da Fé cristã, e são convidadas, no seu derradeiro momento de vida, a crer ou a recusar. Se crêem, elas se salvam; se recusam, condenam-se.
Assim, segundo a doutrina tomista, no último instante todas as pessoas que se salvam acabam pertencendo à Igreja Católica, se não pelo batismo da água, pelo batismo de desejo. E por esse ensinamento vemos como Santo Tomás de Aquino concebe o papel da Fé na salvação e o papel da Igreja para cada católico.
Imaginemos a situação: a alma está nos últimos transes, talvez o homem até sendo dado por morto por todos os circunstantes. Mas vem um Anjo e revela as verdades essenciais da Fé, aquelas sem as quais ninguém se pode salvar. E naquele momento a pessoa é levada a fazer um ato de amor àquilo e tem para isso as graças suficientes. Mas é possível que, por força de seus vícios, em vez de um ato de amor tenha um ato de ódio. Se ela amar, se salvará; se ela odiar, se perderá.
O amor à Igreja é uma fonte de virtudes
Compreende-se, então, como o amor a Deus, o amor à Igreja Católica é a fonte de todas as virtudes. Quem ama se salva, porque depois praticará os Mandamentos e cultivará as melhores qualidades morais. Quem não ama, se perde, porque cortou com a raiz de todos os valores da piedade.
Quantas e quantas vezes tenho ouvido lamentações de pessoas que apresentam dificuldades em tocar a vida espiritual, em perseverar na prática dos Mandamentos, ou pelo menos problemas para progredir na virtude.
A solução qual é?
Uma das muitas soluções — porque a Igreja é a cidade da salvação onde para tudo há diversas saídas— é exatamente aumentar nossa Fé, é aumentar o nosso amor à Igreja Católica. Aumentando esse amor, cresce igualmente a nossa determinação para praticar o bem e a nossa repulsa ao mal. E, cumpre notar, muitas vezes as pessoas não têm suficiente aversão ao mal, porque no fundo não têm suficiente amor à Igreja.
Infabilidade papal, Eucaristia e Confissão: três belezas da Igreja
Voltamos então ao pensamento que pretendíamos aprofundar: a Igreja é a figura de Nossa Senhora, e é resplandecente e bela na terra, e devemos procurar amá-la a fim de nos prepararmos para amar Nossa Senhora no Céu. É necessário que tenhamos os olhos sempre voltados para a Igreja eterna, a Igreja imutável, que não se identifica com as misérias presentes e transitórias, a Igreja que devemos amar acima de todas as coisas no mundo. A Igreja na sua hierarquia, nos seus mil aspectos verdadeiramente divinos.
Recordemos, por exemplo, tudo quanto há de belo na infalibilidade papal, na figura de um homem infalível, governando a todos e a todos ensinando o caminho da verdade, num governo que não é temporal, mas do espírito. Nunca se concebeu, em matéria de governo, algo de tão bonito, de tão nobre quanto isso.
Consideremos, de outro lado, a Eucaristia. Deus verdadeira e realmente presente entre nós, embora oculto de modo misterioso sob as espécies eucarísticas, conferindo ao homem a possibilidade de ter com Deus um convívio tão íntimo e até insondável.
Deus entra nesse homem e como que se faz um com ele. Pode-se imaginar coisa mais esplêndida do que o Todo Poderoso condescender em ter tal familiaridade com cada um dos homens que Ele criou?
Depois, o sacramento da Penitência. Pode-se conceber que inferno seria o mundo sem o confessionário? Se nós não pudéssemos nos abrir sobre os nossos pecados, e não tivéssemos a certeza do perdão? Que horror seria a incerteza sobre se Deus nos perdoou ou não, se estamos ou não em estado de graça, etc., etc.
Que obra-prima de sabedoria existe no confessionário, e no fato de o segredo de confissão nunca ser traído!
E quanto mais o mundo afunda numa decadência moral, mais aparece os raios de luz que partem da Igreja, mais compreendemos o quanto ela é bela e digna de amor.
Quando nós pensarmos em tudo isso, encontraremos mais resolução para combater os nossos pecados e para praticar a virtude.
Que Nossa Senhora das Mercês nos ajude a isso. “Mercê” é uma graça, é um favor. Nossa Senhora das Mercês é Nossa Senhora dos favores, disposta a todo momento a nos conceder dons excelentes e a nos convidar a pedi-los. Tenhamos para com Ela esse tipo de relação muito filial e muito confiante, certos de que sobre nós descerão as misericórdias de nossa Mãe santíssima.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Oração a Maria

Minha Mãe, eu não tenho senão para vos oferecer essas misérias. Mas Vós sois clemente, Vós sois piedosa, Vós sois doce, Vós sois misericordiosa e Vós transformais essas misérias em pedras preciosas. Eu ponho em vossas mãos, em vossa bandeja, Vós as transformais em pedras preciosas e as entregareis a Nosso Senhor. E eu então passarei junto a Nosso Senhor como Rebeca fez com Jacó, que o cobriu com uma pele de animal, o fez aproximar de seu marido, e fez com que o pai desse a Jacó a bênção que estava reservada a Esaú. Que eu receba essa bênção, que eu sei que não mereço, mas revestido por Vós tudo se fará”.

domingo, 11 de dezembro de 2011

CLEMÊNCIA INDIZÍVEL

A realeza que Nossa Senhora exerce sobre o gênero humano não é a do juiz, mas a da advogada, isto é, dAquela que não tem por missão julgar e punir os pecadores, mas a de os defender. Por isso tem Ela para conosco toda sorte de predisposições favoráveis, e sempre nos atende com inefável bondade.
Entretanto, a alma moderna, muito atribulada e tratada com terrível dureza pela atual tirania do demônio, encontra certa dificuldade em compreender o verdadeiro sentido da clemência de Nossa Senhora. Tanto mais quanto uma falsa piedade apresenta esta misericórdia de modo alvar e adocicado, como se ela fosse uma espécie de cumplicidade com o erro. Ora, a ternura e a bondade de Maria não consistem numa vil condescendência para com quem praticou o mal, e sim na materna e invariável disposição de lhe conceder as graças necessárias para abandonar o erro e o pecado.
É nesse sentido que se deve entender a clemência de Nossa Senhora. E enquanto tal, ela é única, suprema e indizível.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Invoca Maria

Cada manhã, o girassol volta-se espontaneamente em direção ao astro-rei e, até que venha a noite, acompanha minuto a minuto a trajetória da esfera de fogo pelo firmamento.
Este fenômeno, dos mais curiosos no mundo da botânica, não é exclusivo do girassol. Em maior ou em menor grau, todas as plantas se orientam de acordo com o movimento do sol. Em regiões muito arborizadas, podemos perceber como as plantas tomam formas diversas, à procura de uma posição que lhes garanta uma maior incidência de raios solares.
A isto denomina-se heliotropismo, termo formado por duas palavras derivadas do grego: hélio (sol) e tropismo (desviar; virar-se para).
Para ilustrar certos movimentos de alma podemos denominá-los de tropismos. O mais importante deles, presente no espírito humano e multiplicado pela ação da graça, é o teotropismo, o estar constantemente à procura de Deus.
Podemos dizer que, subordinado a este teotropismo e a ele conducente, existe um mariotropismo a contínua procura de Maria, do que os santos são modelos.
Verificando as hagiografias de qualquer época e lugar, constataremos que pregadores, estadistas, evangelizadores, donas-de-casa, pontífices, intelectuais, camponesas, guerreiros, artistas, princesas, esmoleres, etc. não importa qual tenha sido a nota distintiva da vida dos que andaram nos caminhos do Senhor, nunca falta neles esse movimento de alma em busca da Santíssima Virgem.
O viver continuamente voltado para Nossa Senhora não é um privilégio das pessoas virtuosas, mas um dom de Deus para a humanidade do qual ninguém está excluído: Neste vale de lágrimas em que vivemos expiando o pecado original e nossos pecados atuais, não deixemos de pôr os olhos na estrela que é Nossa Senhora.
Ora, pensará alguém definitivamente, esses tropismos são para os santos, para as almas puras, e não para um espírito calejado como o meu.
Engano! Precisamente são as almas mirradas e esquálidas as que mais devem procurar a misericordiosa e maternal luz da Santíssima Virgem. E para nos impelir a imitarmos o girassol em relação ao astro diurno, repetir-nos-á o apelo de São Bernardo:
Ó tu, quem quer que sejas, que te sentes longe da terra firme, arrastado pelas ondas deste mundo, no meio das borrascas e tempestades, se não quiseres soçobrar, não tires os olhos do fulgor desta estrela. Se, perturbado pela lembrança da enormidade de teus crimes, confuso à vista das torpezas de tua consciência, aterrorizado pelo medo do Juízo, começas a te deixar arrastar pelo turbilhão da tristeza, a despenhar no abismo do desespero, pensa em Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Coração do Filho, Coração da Mãe

Tomemos, por exemplo, essa belíssima invocação: Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe.
Se considerarmos o Coração de Jesus em sua realidade material e carnal, objeto de nosso culto como símbolo da vontade de Nosso Senhor e, portanto, do seu amor para conosco; se o considerarmos enquanto formado no seio imaculado de Nossa Senhora, com a matéria que a Mãe fornece para a constituição do corpo do Filho, ligada à divindade dEle em união hipostática compreendemos que a carne de Jesus é a própria carne de Maria, o sangue de Jesus é o próprio sangue de Maria, e, portanto, o Coração de Jesus é de algum modo o Coração de Maria.
Se nos detivermos na evocação desse processo de geração tão admirável, pelo qual Jesus foi assim formado do corpo de Maria, num oceano, num incêndio de amor e de adoração dEla para com esse filho que se modelava em suas entranhas, compreenderemos ainda mais como o Coração de Jesus está ligado ao Coração Imaculado de Maria, e como podemos ter uma confiança sem reserva na eficácia da intercessão de Nossa Senhora junto a Nosso Senhor.
Com efeito, Ele jamais poderia recusar qualquer coisa a essa Mãe Santíssima, perfeitíssima, da qual Ele não tem nenhuma queixa, antes o mais superlativo e total contentamento que o Criador pode ter em relação à sua criatura. Mais ainda: de cuja carne virginal Ele sabe ter sido formada a sua própria carne, e cujo Coração pulsa em uníssono com aquele que lateja em seu sagrado peito.
Creio que, para os devotos de Nossa Senhora, essa invocação se reveste de imenso significado, e merece ser recitada com especial fervor.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Imaculada Conceição

Imaculada e vitoriosa
Conforme nos ensina a Bula “Ineffabilis Deus”, a beleza e a perfeição da Santíssima Virgem só se manifestam completas porque Ela triunfa, vence e aniquila o demônio. Satanás é um escabelo aos pés d’Ela. Sendo Maria imaculada e soberanamente formosa, não basta que todas as criaturas deste mundo, as do Céu e as do Purgatório Lhe prestem homenagem: importa que o inimigo esteja esmagado sob seu calcanhar.
Uma perfeita consideração do esplendor de Nossa Senhora envolve, portanto, a ideia do demônio inteiramente subjugado e humilhado por Ela. Essa vitória sobre Satanás dá um particular brilho à celestial beleza da Imaculada Conceição.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Irresistível e régia misericórdia

Todos nós, segundo São Luís Grignion de Montfort, somos vermezinhos e miseráveis pecadores. Ou seja, na ordem espiritual, valemos tanto quanto o menor dos vermes, porque somos pecadores miseráveis. Mas! Temos a nosso favor uma Rainha extraordinária, que se encontra acima dos anjos, Aquela que é Filha, Mãe e Esposa, respectivamente, de cada uma das Três Pessoas da Santíssima Trindade: a Bem-aventurada Virgem Maria.
Assim, devemos suplicar a Ela cuja ilimitada misericórdia nenhum pecado consegue deter, e a cuja materna vontade jamais pôde resistir seu Divino Filho que tenha compaixão de nós, pecadores tão endurecidos, e nos obtenha do Sagrado Coração de Jesus o perdão e a salvação para nossas almas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Devoção à Santíssima Virgem e à Sagrada Eucaristia

A vida espiritual exige a mortificação, isto é, a guarda cuidadosa dos sentidos, ou não será vida espiritual. A verdadeira mortificação não consiste apenas em nos privarmos dos prazeres ilícitos ou perigosos, mas também daqueles prazeres lícitos que, pelas circunstâncias de fato, variáveis no tempo e no espaço, têm uma certa conexão com a mundanidade. É necessário, ainda, a abstinência dos prazeres, também lícitos, que podem lisonjear as más disposições e tendências desregradas de cada um.
Enfim, todas estas regras de vida espiritual devem encontrar seu complemento indispensável numa dupla devoção, sem a qual nenhum fruto se colheria: a devoção a Nossa Senhora e à Santíssima Eucaristia. Não basta uma só delas, mesmo porque não é possível separá-las, ou já não serão verdadeiras.
A Santíssima Virgem é a Rainha da bem-aventurança e dos bem-aventurados, e a devoção a Ela é considerada sinal certo de predestinação. Só há um caminho para Deus, que é Nosso Senhor Jesus Cristo; mas só há um caminho para Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Nossa Senhora, a medianeira de todas as Graças.
Onde está Maria, não há temer ilusões, extravios, erros, porque Ela é a inimiga, assim constituída por Deus, do demônio e de suas fraudes (Gen. 3,15). A devoção a Maria é, ainda, uma consequência necessária do Corpo Místico. Pois, se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasce dEla, os predestinados, que são os membros deste chefe, também devem nascer dEla inelutavelmente.  Uma mesma mãe não dá ao mundo a cabeça ou o chefe sem os membros, nem os membros sem a cabeça; isto seria um monstro da natureza. Igualmente, na ordem da Graça, o chefe e os membros nascem da mesma mãe. E se um membro do Corpo Místico de Jesus Cristo, quer dizer, um predestinado, nascesse de outra mãe que não fosse Maria que produziu o chefe, não seria um predestinado, nem um membro de Jesus Cristo, mas um monstro na ordem da graça (São Luís Maria Grignion de Montfort, La vraie dévotion, cap. 1, art. 1º, § 32).
Assim, o devoto da Santíssima Virgem encontrará no Coração de Maria o próprio Coração de Jesus, naquilo que este Coração tem de mais amoroso, mais terno e mais compassivo. Ora, onde mais se manifestam as finezas do Coração de Jesus é na Santíssima Eucaristia. Desse modo, a devoção a Nossa Senhora leva natural e espontaneamente à devoção eucarística. E é aí que as pessoas encontrarão o alimento de sua vida espiritual, em primeiro lugar na frequência assídua à Santa Comunhão, depois na adoração também assídua ao Santíssimo Sacramento.
Sem este culto fervoroso à Eucaristia que só pode ser verdadeiro com o culto mariano, pelo culto mariano e no culto mariano não é possível a vida espiritual, pois que esta é a assimilação deste sublime alimento, segundo as recomendações dadas. É no Santíssimo Sacramento que reside não só a Graça, mas o Autor de toda Graça, à cuja semelhança se fazem os eleitos, porque fora dEle não há bênção nem fruto, nem ressurreição bem-aventurada. A Ele, pois, sejam dadas honra, glória, louvor, adoração, ação de graças, por todos os séculos. Amém.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Imaculada Conceição, obra-prima do Criador

Na bula Inefffabilis Deus com a qual Pio IX definiu o dogma da Imaculada Conceição (cuja festa se comemora no dia 8 de Dezembro, encontra-se este trecho: A doutrina que sustenta que e Beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, foi preservada e imune do toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, o por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis’.
O Sumo Pontífice afirma, portanto, que Nosso Senhora, por uma graça singular e em vista dos méritos do Cristo, a partir do primeiro instante de seu ser foi isenta da mancha do pecado original. Essa doutrina foi revelada por Deus, ou seja, está na Bíblia, e por isso deve “ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis”.
Para se avaliar o extraordinário significado da Imaculada Conceição, é preciso ter em conta que, em consequência da queda do Adão, todos os seus descendentes haviam de nascer com o pecado original. Lamentável herança em virtude da qual os sentidos do homem continuamente se revoltam contra a sua razão, expondo-o a novos e incontáveis pecados.
Durante milénios verificou-se, Inexorável, essa lei da maldição. Em determinado momento, porém, os Anjos assistem atônitos a um fato sem procedentes na história da Humanidade decaída: Deus quebranta a funesta lei, e um ser é inteiramente concebido sem pecado original É Nossa Senhora que surge imaculada, resplandecente, com todo o brilho e todo o fulgor de uma criatura perfeita, como o foram Adão e Eva ao saírem das mãos do Onipotente.
Pode-se imaginar que, nesse sublime instante, um (frémito de júbilo e de gIória percorreu todo o universo, acentuado pelo fato de que Maria, isenta do pecado original, era também a obra-prima da criação. Acima d’Ela haveria da estar, apenas, a humanidade Santíssima do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Narra a Sagrada Escritura que o Padre Eterno, depois de concluída a obra da Criação, repousou na enlevada consideração do quo Ele tinha feito. Descansou, porém, tendo-se proposto criar um ser que superasse em maravilha tudo o que até então sua onipotência realizara, uma mulher da qual haveria de nascer o Verbo Encarnado. E foi precisamente no momento da Conceição Imaculada de Nossa Senhora que Deus executou essa sua obra-prima.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Plenitude de Inocência

Nossa Senhora é a criatura dourada por excelência. Antes de seu nascimento, não houve em toda a história da Antiguidade quem tivesse um espírito tão inocente quanto o d’Ela. A inocência que, à maneira de vestígio, ficara difusa pela antiga humanidade, revigorou-se em Nossa Senhora. Imaculada, toda pura e sem mancha alguma de pecado, Ela praticou na ordem da inocência um ato de virtude tão imenso, que se revestiu de uma plenitude paradisíaca por nós inconcebível. E dessa plenitude deriva nossa própria inocência.
“Maria mons, Maria pons, Maria fons”: Ela é a montanha de Deus, a ponte que a Ele nos conduz, o oceano de graças de que todos nos beneficiamos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Nas horas da extrema aflição, o sorriso de Nossa Senhora

O Conde Raul de Chester voltava da Cruzada, na qual havia se coberto de glórias tomando Damieta [no Egito], quando uma violenta tempestade caiu sobre o navio em que viajava. Eram já dez horas da noite. Como o perigo aumentava a cada instante, o conde exortou, pois, os viajantes a redobrar os esforços [para estabilizar a embarcação] por mais um minuto, prometendo que a tormenta passaria logo. Ele próprio se pôs a manobrar e a trabalhar mais do que os outros. O vento parou dentro em pouco, o mar serenou e, quando o piloto perguntou a Raul porque ele lhe tinha ordenado trabalhar apenas um minuto a mais, o nobre respondeu: “Porque, a partir dessa hora, os monges e outros religiosos que meus ancestrais e eu estabelecemos em vários lugares se preparavam para cantar o Ofício. Sabendo que nesse momento eles estariam rezando, eu esperava do Céu que, graças às orações deles, cessasse a tempestade”.
Embora não falte quem julgue controvertida a autenticidade histórica de acontecimentos como este, é muito provável que as coisas se tenham passado assim como narra o autor, não havendo, portanto, nenhuma razão especial para duvidarmos de sua veracidade. Para os que não têm espírito cético nem incréu, esse é um lindíssimo episódio que indica um igualmente belo princípio da doutrina católica.
Por que Deus permite que a situação da vida de uma pessoa chegue ao um extremo de angústia para só então intervir? Exatamente para provar a confiança n’Ele. As horas de extrema aflição são as horas da Providência, são as horas da misericórdia. O verdadeiro católico, quando sabe que tudo está perdido, reza e confia mais do que nunca, porque é a hora do sorriso de Maria Santíssima para ele, assim como o foi para aqueles valorosos guerreiros em meio à tempestade no Mediterrâneo. Quando já não havia mais esperanças nos recursos humanos, Nossa Senhora, a Estrela do Mar, interveio, libertou-os e resolveu a angustiante situação em que se encontravam.
Lembremo-nos sempre disso: nos momentos de nossas maiores provações e aflições, rezemos com redobrado fervor e confiança. Nossa Senhora não tardará em nos sorrir.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

“Porta do Céu, abri-vos para mim!”

Nossa Senhora é chamada a Porta do Céu. É por meio d’Ela que Nosso Senhor Jesus Cristo passou do Céu para a Terra, e é através d’Ela que os homens passam do mundo para a eterna bem-aventurança. É por essa porta que todas as nossas orações chegam até Deus, e é por meio d’Ela que obtemos as graças necessárias para a nossa salvação. Assim, em todos os dias de nossa vida e, sobretudo, no momento em que estivermos para entrar na eternidade, a Ela devemos dirigir esta filial e confiante súplica: “Porta do Céu, abri-vos para mim!”

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Prêmio à altura do afeto

Mãe de Misericórdia, Nossa Senhora às vezes concede graças a pedido de quem não merece, como reza o “Lembrai-Vos”. Mas, Ela é também Mãe de Justiça. E a todo bem realizado por seus filhos, com quanta alegria Ela os favorece com uma justa recompensa! Como se dissesse a cada um deles: “Meu filho, a ti não darei uma graça porque te perdôo, e sim porque te premio. Que felicidade tu me proporcionas pelo fato de mereceres esse prêmio! Ei-lo, não à altura, mas muito maior do que teu mérito: à altura de meu maternal afeto...”

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Maria - Mãe dos homens

A maternidade espiritual de Nossa Senhora em relação ao gênero humano, e a mediação universal de Maria Santíssima.
Dada a espessa ignorância religiosa que reina entre nós, não falta quem suponha que a Igreja dá a Nossa Senhora o título de Mãe do gênero humano, simplesmente para descrever de certo modo os sentimentos afetuosos e protetores que Ela experimenta em relação aos homens. Como estes sentimentos são próprios às mães, por analogia, Nossa Senhora seria também a nossa Mãe. E nós seríamos, em relação a Ela, pobres mendigos que, na sua generosidade, Ela protege como se fossem filhos.
A realidade, entretanto, é muito outra. Não somos filhos de Nossa Senhora simplesmente por uma adoção afetiva. Ela não é nossa Mãe apenas no terreno fictício ou na ordem sentimental, mas com toda a objetividade, na ordem verídica da vida sobrenatural.
O pecado original e a Redenção
Antes do pecado original, nossos primeiros Pais, vivendo no Paraíso, foram criados por Deus para a glória celeste, que eles poderiam atingir transpondo os umbrais desta vida em um trânsito que não teria a tristeza tétrica da morte, mas o esplendor de uma glorificação.
O pecado original, entretanto, rompendo a amizade em que o gênero humano vivia com Deus, fechou aos homens a porta do Céu, e obstruiu o livre curso da graça de Deus para [nós]. Em outros termos, com a punição do pecado original, os homens perderam qualquer direito ao Céu e à vida sobrenatural da graça.
Se bem que não fosse extinto, isto é, que perdesse a vida terrena, o gênero humano perdeu, pois, o direito à vida sobrenatural. E ele só poderia readquirir tal vida se apresentasse à Justiça divina uma expiação proporcionada à enormidade de seu pecado. (...) Ora, Deus é infinitamente grande. Por aí não é difícil avaliar a gravidade do pecado original. Uma ofensa feita ao Infinito só poderia ser convenientemente resgatada por meio de uma expiação infinitamente grande. E não está no poder do homem, ser contingente por natureza, e envilecido pelo pecado, oferecer ao Criador um tão valioso desagravo. Os pontos que nos ligavam a Deus pareciam, pois, definitivamente cortados, e irremediável a decadência a que se atirara loucamente o gênero humano com o pecado.
Foi para remediar tão insolúvel situação, que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnando-se no seio puríssimo de Maria Virgem, assumiu a natureza humana sem nada perder de sua Divindade, e o Homem-Deus assim constituído se pôde apresentar à Justiça do Pai, como cordeiro expiatório do gênero humano.
Efetivamente, como Homem, Nosso Senhor Jesus Cristo podia oferecer uma expiação que fosse realmente humana. Mas em virtude da dualidade das naturezas n’Ele existentes, essa expiação, se bem que humana, tinha um valor infinito, pois que consistia na efusão generosa e superabundante do Sangue infinitamente precioso do Homem Deus. Assim, no Sacrifício do Calvário, Nosso Senhor aplacou a justiça divina, e fez renascer para o Céu e a vida sobrenatural da graça a humanidade que estava absolutamente morta em tudo quanto se referisse ao sobrenatural. Se Deus, Uno e Trino, é nosso Criador, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnando-Se, se tornou nosso Pai por um título muito especial, que é o da Redenção. Jesus, morrendo, deu-nos a vida sobrenatural. E quem dá a vida é verdadeiramente Pai, no sentido mais amplo da palavra.
Maria é autenticamente nossa Mãe
Se o gênero humano pôde beneficiar-se da Redenção, é porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se fez homem, pois que o pecado dos homens deveria ser resgatado.
Ora, se Jesus Cristo assumiu natureza humana, fê-lo em Maria Virgem, e assim esta cooperou de modo eminente na obra da Redenção, transmitindo ao Salvador a natureza humana que nos desígnios de Deus era condição essencial da Redenção. De mais a mais, Maria Santíssima ofereceu de modo inteiro, e sumamente generoso, o seu Filho como vítima expiatória, e aceitou de sofrer com Ele, e por causa d’Ele, o oceano de dores que a Paixão fez brotar em seu Coração Imaculado.
Assim, pois, a Redenção nos veio por Maria Virgem, e sua participação nessa obra de ressurreição sobrenatural do gênero humano foi tão essencial e tão profunda, que se pode afirmar que Maria cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Pelo que, Ela é, autenticamente, nossa Mãe. Autenticamente, acentuo, pois que não se trata aí de divagações sentimentais ou literárias, mas de realidades objetivas, que, se bem que sobrenaturais, não deixam de ser absolutamente verdadeiras por isso mesmo que são sobrenaturais. (...)
Nossa Senhora, ápice da Criação
De acordo com toda a doutrina católica, o santo Grignion de Montfort mostra, então, as grandezas de Maria Santíssima. Demonstrando que Ela é Mãe, o que há de mais conveniente e de mais necessário até, do que o conhecimento da suprema dignidade e da inexcedível misericórdia que Ela possui?
São Tomás de Aquino diz que Nossa Senhora recebeu de Deus todas as qualidades com que seria possível a Ele cumular uma criatura. De sorte que Ela se encontra no ápice da criação, firmando seu trono acima dos mais altos coros angélicos, e sendo inferior apenas ao próprio Deus, que, sendo só Ele infinito, está infinitamente acima de todos os seres, inclusive de Nossa Senhora.
Costuma-se dizer que Nossa Senhora brilha mais do que o sol, tem a suavidade da lua, a beleza da aurora, a pureza dos lírios, e a majestade do firmamento inteiro. Muita gente supõe que tudo isto não passa de hipérboles, [mas] estas comparações pecam por sua irremediável deficiência. O sol, a lua, a aurora, e todo o firmamento são seres inanimados, e estão, portanto, colocados na última escala da criação. Não é admissível que Deus os fizesse tão formosos, dando ao homem dons menores. E, por isto mesmo, a mais apagada das almas mortas em paz com Deus, tem uma formosura que excede incomparavelmente a de todas as criaturas materiais. Que dizer-se, então, de Nossa Senhora, colocada incalculavelmente acima, não só dos maiores Santos, mais ainda dos Anjos mais elevados em dignidade junto ao trono de Deus?
Um caipira que fosse assistir à solenidade da coroação do Rei da Inglaterra, voltando aos seus pagos natais, possivelmente não encontrasse outros termos para explicar a magnificência daquilo que viu, senão afirmando que foi mais belo do que as festas em casa do Nhô Tonico, o homem menos pobre da região. Se o Rei da Inglaterra ouvisse isto, que outra coisa poderia fazer, senão sorrir?
Pois nós, quando procuramos descrever a formosura de Nossa Senhora com os termos escassos da linguagem humana, fazemos o mesmo papel... e Ela também sorri.
Não recorrer a Maria é “querer voar sem asas”
Não espanta, pois, que seja verdade de fé que Deus se compraz tanto em Nossa Senhora, que um pedido feito por meio d’Ela é sempre atendido, ainda que não conte senão com o apoio d’Ela. E que se todos os Santos pedissem alguma coisa sem ser por meio d’Ela nada conseguiriam. Porque, como diz Dante, querer rezar sem Ela é o mesmo que querer voar sem asas...
Assim, pois, todas as graças nos vêm de Nossa Senhora, e é Ela a medianeira universal de todos os homens, junto a Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, se todas as graças nos vêm d’Ela, e se nossa vida espiritual não é senão uma longa sucessão de graças a que correspondemos, ou renunciamos a ter vida espiritual, ou devemos compreender que esta será tanto mais suave, mais intensa e mais perfeita, quanto mais próximos estivermos junto daquele único canal de graça, que é Nossa Senhora. Deus é a fonte da graça, Nossa Senhora o único canal necessário, e os Santos meras ramificações, aliás veneráveis e dignas de grande amor, do grande canal que é Nossa Senhora.
Queremos ter a graça inestimável do senso católico? Queremos ter a virtude inapreciável da pureza? Queremos ter o tesouro sem preço, que é o dom da fortaleza, queremos ser ao mesmo tempo mansos e enérgicos, humildes e dignos, piedosos e ativos, meticulosos em nossos deveres e inimigos do escrúpulo, pobres de espírito se bem que jungidos às riquezas do mundo, em uma palavra, fiéis e devotos servidores de Nosso Senhor Jesus Cristo?
Dirijamo-nos ao trono que Deus deu a Nossa Senhora, e, no recesso amoroso da Igreja Católica, nossa Mãe, peçamos a Nossa Senhora, também nossa Mãe, que nos faça semelhantes a seu Divino Filho.
(Extraído do “Legionário” de 10/12/39. Títulos e subtítulos nossos.)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Nossa Senhora de Guadalupe

As aparições de Nossa Senhora de Guadalupe - Padroeira da América Latina
Em 9 de dezembro de 1531, João Diego estava nos arredores da colina Tepeyac, perto da atual Cidade do México, quando, de súbito, ouviu uma música suave e melodiosa que, pouco a pouco, foi se extinguindo. Nesse momento escutou uma lindíssima voz que, no seu idioma nativo, o chamava pelo nome. Era Nossa Senhora de Guadalupe.
Depois de cumprimentá-lo com muito carinho e afeto, Ela lhe dirigiu estas palavras cheias de bondade: “Porque sou verdadeiramente vossa Mãe compassiva, desejo muito que construam aqui para mim um templo, para nele Eu mostrar e dar todo o meu amor, minha compaixão, meu auxílio e minha salvação a ti, a todos os outros moradores desta terra e aos demais que me amam, me invoquem e em mim confiem. Neste lugar quero ouvir seus lamentos, remediar todas as suas misérias, sofrimentos e dores.”
Em seguida, Nossa Senhora pediu a João Diego que fosse ao Palácio do Bispo do México, e lhe comunicasse que Ela o enviava e solicitava a construção do templo.
O prelado não deu crédito às narrações do índio, tanto na primeira como na segunda aparição da Santíssima Virgem a João Diego. Era necessário um “sinal”, para demonstrar que se tratava realmente da Rainha do Céu. Pela terceira vez a Mãe de Deus se fez visível ao indígena e, radiante de doçura, aceitou sem a menor dificuldade conceder-lhe o sinal pedido.
Ordenou-lhe subir à colina de Tepeyac e cortar as flores que ali encontrasse. Esse encargo era impossível, uma vez que lá nunca nasciam flores, e menos ainda no inverno, estação em que se achavam. Mas Diego não duvidou. Subiu a colina e no seu cume encontrou as mais belas e variadas rosas, todas perfumadas e cheias de gotas de orvalho como se fossem pérolas. Cortou-as e guardou-as em sua tilma (o poncho típico dos índios mexicanos). Ao chegar embaixo, Diego apresentou as flores a Nossa Senhora, que as tocou com suas mãos celestiais e voltou a colocá-las na tilma, dizendo ao índio: “Filhinho meu, esta variedade de flores é a prova e sinal que levarás ao bispo. Tu és meu embaixador no qual absolutamente deposito toda confiança. Com firmeza te ordeno que diante do bispo abras tua manta e mostres o que levas.”
E Diego assim o fez. Ao abrir a tilma diante do bispo, caíram as mais preciosas e perfumadas flores e, no mesmo instante, estampou-se no tecido a portentosa imagem da Santíssima Mãe de Deus, que se venera até hoje no Santuário de Guadalupe.
Comentários
Em 12 de dezembro a Igreja celebra, na América Latina, a festa de Nossa Senhora de Guadalupe. A Mãe de Deus apareceu no cerro de Tepeyac (atualmente encravado na cidade de México) ao índio João Diego, recentemente canonizado, e deixou como penhor do seu amor pelo Novo Continente o milagre que até hoje é admirado no Santuário de Guadalupe: a bela figura da Santíssima Virgem estampada no manto do vidente.
No século XVI, Nossa Senhora apareceu em Tepeyac, no México, ao índio João Diego. A Virgem o tratou com bondade e ternura especiais, como não se percebe em outras aparições d’Ela, mesmo nas de Fátima onde Maria Santíssima entretanto se manifesta tão solícita e misericordiosa.
A “menina dos olhos” de Nossa Senhora
A liberdade desse indígena para com a Mãe de Deus era tão grande que, em vez de chamá-la, por exemplo, “minha Rainha”, dizia-Lhe “minha Filhinha”. Hábito realmente contrário ao protocolo, mas aceito com tanta benevolência por Nossa Senhora que, séculos depois, a partir dos avanços da tecnologia, constatar-se-ia numa fotografia da imagem que a figura do índio se acha impressa na pupila dos olhos da Virgem. O objeto daquele singular carinho de Maria estava assim imortalizado. 
Como se sabe, em português, quando se diz de alguém ser “a menina dos meus olhos”, significa estar ele no ponto mais sensível e central de minha atenção e consideração, de meu afeto. Ora, esse simbolismo realizou-se, ao pé da letra, na visão de Nossa Senhora de Guadalupe.
O fato de Nossa Senhora te se manifestado tão extremamente carinhosa e benigna em relação a esse indígena latino-americano foi uma forma de exprimir um particular desvelo em relação ao continente ao qual ele pertencia. Sim, pois não é exagero pensar que aos olhos d’Ela, João Diego representava toda a América Latina. E cada um de nós, simbolizado por esse índio, estava espelhado nos olhos de Maria. Ideia esta que não encerra nenhum disparate, posto ter a Santa Sé declarado Nossa Senhora de Guadalupe como Padroeira da América Latina.
Milagre confirmado pela técnica moderna
É interessante salientar, uma vez mais, que o milagre dessa estampa foi confirmado pela técnica moderna, mediante ampliações fotográficas, etc., conforme noticiou certa vez um importante diário carioca:
Após oito anos de intensas pesquisas, uma comissão de oculistas, químicos, optometristas e desenhistas mexicanos confirmou que os olhos da imagem da Virgem de Guadalupe refletem a fisionomia de Juan Diego, o índio a quem a Senhora apareceu quatro vezes. A comissão declarou que se trata “de figura de um busto de um homem simetricamente colocado (isto é, em cada retina) e que corresponde ao reflexo da córnea de acordo com as leis da ótica”.
Quer dizer, se olho para algo, de acordo com as leis da ótica este algo se reflete em minha retina. Continua a notícia:
O desenhista Salinas Chaves, que fez a descoberta em 1951 quando examinava fotografias ampliadas do rosto da imagem, propôs que Juan Diego fosse canonizado1. A imagem recebe anualmente a visita de mais de três milhões de fiéis 2.
É deveras bonito que, com o auxílio de aparelhos modernos e empregando-se conhecimentos científicos atuais, fique provado que uma pintura dessa natureza não foi produzida por meios humanos. Isto demonstra a intervenção do fator sobrenatural e nos deixa maravilhados. É uma confirmação insuspeita do milagre.
Uma imensa família de nações católicas
Posta essa extraordinária constatação, devemos nos voltar de modo especial para Nossa Senhora de Guadalupe como Padroeira da América Latina.
No noticiário internacional de nossos dias fala-se muito do bloco latino-americano como um todo, vincando-se a ideia de que este constitui uma imensa família de nações, no sentido católico da palavra. Um bloco, diga-se, e o esperamos ardentemente, que ainda há-de ser esculpido pela Providência para se tornar uma das obras-primas da História.
Ora, essa unidade da América Latina se viu corroborada justamente pelo fato de ter uma Padroeira sob a invocação de Nossa Senhora de Guadalupe, e a coesão desse todo é tão real que, nos domínios de Maria Santíssima, constitui um feudo à parte, sobre o qual Ela deposita particulares desígnios.
Missão de levar ao píncaro a cultura católica
Importa reconhecer que a América Latina representa a herança legada pela Europa católica a este século e aos vindouros. O espírito latino, riquíssimo entre as variantes existentes no gênero humano, possui singular aptidão para as coisas mais elevadas — e, portanto, para as verdades da Fé, para o sobrenatural — que o torna um dos elementos mais preciosos da Igreja Católica.
A latinidade conservou relativamente imunes os valores mais nobres da tradição que a formou. Os povos latinos se modernizaram menos que os americanos do norte e os europeus, e nisto consiste, sob algum aspecto, nosso glorioso “subdesenvolvimento”: ou seja, a distância que ainda nos separa das coisas ruins advindas com a modernidade.
Percebe-se, pelo acima considerado, que a Ibero América tem a missão de levantar e colocar num píncaro o facho da cultura latina católica, inteiramente a serviço da Fé, para brilhar no mundo. Fora disso, ela não tem sentido.
Essa cultura católica está derribada, prostrada, mas revive em nosso continente com todo o viço da juventude e com possibilidades de futuro, conservando e avultando os legados recebidos das expressões culturais incomparáveis da cristandade europeia. Somos o renascimento e o reflorescimento desses valores nas zonas protegidas por Nossa Senhora de Guadalupe.
Fervorosa súplica à Virgem de Guadalupe
Assim, devemos ter a alma bem impostada para pedirmos a Ela, no dia em que a celebramos: antes de tudo, que mantenha a América Latina cada vez mais sujeita e unida a ela. E, por isso mesmo, com todos os vínculos que constituem sua coesão ainda mais acentuados. E que esse imenso potencial, no momento apropriado, se  levante para servir a Santa Igreja, tornando-se o elemento melhor e mais dinâmico para formar uma nova Civilização Cristã. 
Tem-se, na verdade, a impressão de que a América Latina está reservada por Nossa Senhora para ser o imenso território onde a glória do reino d’Ela reluzirá com maior esplendor. Assim, podemos acrescentar essa súplica:
“Nossa Senhora de Guadalupe, realizai em nós esses desígnios a fim de que, quanto antes, venha sobre nós, para nós, o Reino de Maria. Amém.”  
1) O que de fato aconteceu, sendo canonizado pelo Papa João  Paulo II em 31 de julho de 2002. 
) Cf. O Globo, de /1/1975.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

As preces de Maria anteciparam a Redenção

Todos os teólogos são acordes em afirmar que, se a salvação raiou para o mundo na época em que raiou, devemo-lo às preces onipotentes de Maria, que conseguiu antecipar o dia do nascimento do Messias. Ninguém pode dizer quantos anos ou quantos séculos teria ainda demorado a Redenção, sem as preces de Maria.
Não foi, pois, daqueles que, no tempo de Augusto, se agitavam nas praças públicas ou nos conciliábulos políticos para conseguir a reorganização do mundo, que esta reorganização veio. Ela veio da oração humilde e confiante da Virgem Maria, inteiramente ignorada por seus contemporâneos, e vivendo uma vida contemplativa e solitária, no pequeno recanto, onde a Providência a fez nascer.
Sem, com isto, desmerecer por pouco que seja a vida ativa, é preciso notar que foi por meio da oração e da contemplação, que se antecipou o momento da Redenção. E que os benefícios que o gênio de Augusto, o tino de todos os grandes políticos, todos os grandes generais, financistas e administradores de seu tempo não puderam dar ao mundo, Deus os dispensou por meio de Maria Santíssima. Quem mais beneficiou ao mundo não foi quem mais estudou, nem quem mais agiu, mas quem mais e melhor soube orar.

domingo, 27 de novembro de 2011

Incansável e maternal proteção

Nossa Senhora está presente na ininterrupta luta que cada homem trava contra seus defeitos, para adquirir maiores virtudes. E ainda que não nos lembremos d’Ela, Maria intercede por nós no alto do Céu, com uma misericórdia que nenhuma forma de pecado pode esgotar.
Nossa Senhora não é um refúgio apenas para os que tenham cometido faltas leves, mas também para os autores de pecados de gravidade inimaginável e para os culpados das ingratidões inconcebíveis. Pois é próprio da grandeza da Mãe de Deus, na qual tudo é admirável e extraordinário, ser um imenso e perfeito refúgio. Desde que o pecador se volte para Ela, a Virgem Santíssima cheia de bondade o protege, concede-lhe toda espécie de perdão, limpa-lhe a alma, dá-lhe forças para praticar a virtude e o transforma de filho pródigo em homem bom e fiel.