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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Graças obtidas por Nossa Senhora


Podemos imaginar que, por ocasião de Pentecostes, estava Nossa Senhora sentada numa cadeira de braços como se fosse um trono, colocado num estrado, tendo diante d’Ela os doze Apóstolos sentados em tronos menores, dispostos mais ou menos em semicírculo.

Todos rezavam, pois haviam feito um longo recolhimento espiritual e suplicaram graças, as quais desceram sobre cada um deles em torrentes, a rogos de Maria Santíssima, medianeira de todos os dons divinos. Segundo nos ensina a doutrina católica, Nosso Senhor sempre atende os pedidos de sua Mãe em nosso favor, e Ela tem para conosco toda espécie de misericórdias e bondades, alcançando-nos não apenas as graças de que necessitamos, como também o conhecimento exato e a justa ponderação de nossas faltas e imperfeições. Em seguida, o pesar, ou seja, a contrição. Esta é preciosa, pois torna agradável a Deus a alma até há pouco carregada de pecados.

Continuando a se dirigir a Deus, sempre por meio da Virgem Maria, a alma recebe graças e mais graças.

Quantos e que espécie de favores divinos os Apóstolos terão alcançado, estando assim juntos de Nossa Senhora, participando de seu convívio e com Ela conversando?

Podemos imaginar que, nessa situação, um deles talvez tenha se levantado, feito-Lhe uma vênia profunda, ajoelhou-se, acusou-se de seus pecados e pediu perdão. E a Mãe de Deus, fitando-o com bondade e delicadeza inigualáveis, lhe diz: “Filho, vou rezar por ti. Tem certeza, teus pecados serão perdoados”. Permanecendo mais um tempo genuflexo, ele afinal se ergue e retorna ao seu lugar...

Crepita um ardor na sala. E um a um, os demais Apóstolos procedem da mesma forma. Aproveitam para contar fatos da vida de Nosso Senhor, ocorridos no convívio deles com o Divino Mestre, que os outros ouvem com avidez extraordinária. Nesse ambiente — de um silêncio eloquente, ou eloqüência silenciosa — o fervor aumenta e em determinado momento todos se sentem mais no Céu do que na Terra.

O espírito de Nossa Senhora paira a uma altura inimaginável, sem perder contato com os filhos d’Ela. Em certa hora, uma luz começa a aparecer. Quando ela se torna mais intensa e se generaliza, há um estouro harmônico e perfumado. Os anjos cantam, Nossa Senhora está recolhidíssima, como no instante em que se deu a Encarnação do Verbo em seu seio puríssimo, ou quando Ela segurou em suas mãos o Menino Jesus, logo após Lhe ter dado à luz, e seus olhares pela primeira vez se cruzaram.

Tudo isso se pode imaginar com cuidado, para não se cair em erro. Porque a imaginação voa, e é capaz de nos levar a sérios enganos. Assim, nunca devemos conjecturar algo que não esteja de acordo com a doutrina da Igreja baseada na Escritura, a qual foi redigida sob a inspiração do Espírito Santo. Contudo, nossa alma pode supor coisas que alimentem seu próprio fervor e nos proporcionem a ideia de como os fatos se teriam passado.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O ápice de ouro da criação

Entre o Padre Eterno e a criação existe o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade e tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão.
Resta, contudo, um tal abismo separando Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na ordem das coisas não deveria haver um outro ser que, ao menos de algum modo, preenchesse esse hiato?
Ora, a criatura chamada a completar esse vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os homens de todas as épocas — é precisamente Nossa Senhora.
A Virgem Santíssima é, para Deus Padre, a mais eleita das criaturas, escolhida por Ele, desde toda a eternidade, para ser a Esposa de Deus Espírito Santo e a Mãe de Deus Filho. Para estar à altura dessa dignidade, Maria havia de ser a ponta de pirâmide de toda a criação, acima dos próprios Anjos, elevada a uma inimaginável plenitude de glória, de perfeição e de santidade.
Compreende-se. Sendo Mãe de Jesus Cristo, Ela foi verdadeira Esposa do Divino Espírito Santo. E não poderia corresponder a tão elevada prerrogativa se não fosse maior do que o maior dos Anjos. Assim, Ela, mera criatura humana, é mais perfeita e mais santa do que toda a coorte angélica, e incomparável com qualquer outro ser.
Elo de ouro entre Deus e os homens
Por causa disso, Dante Alighieri, o grande poeta italiano da Renascença, na sua “Divina Comédia” (que alguns dizem ser a Suma Teológica de São Tomás de Aquino posta em verso), registra de modo emocionante o momento em que encontra a Santíssima Virgem no Céu.
Após ter passado pelo Inferno e pelo Purgatório, ele percorre os vários círculos dos bem-aventurados, até chegar no mais alto coro angélico, ou seja, no píncaro da mansão celeste, onde começa a divisar a glória de Deus. É uma luz difusa, que seus olhos não conseguem sustentar. Ele repara então num outro ser que está acima dos Anjos: Nossa Senhora. A Virgem Santíssima lhe sorri, e Dante contempla nos olhos d’Ela o reflexo da luz incriada da Eterna Majestade. Acabou-se a “Divina Comédia”.
Depois de a pessoa ter posto os olhos nos olhos virginais de Nossa Senhora, não tem mais nada que contemplar, senão a Deus, face a face. Pois o olhar humano fitou o olhar puríssimo, o olhar sacralíssimo, o olhar sumamente régio, o olhar indizivelmente materno de Nossa Senhora. Tudo está consumado: a “Divina Comédia” termina na mais alta das cogitações que pode alcançar um filho de Eva.
Nossa Senhora é o grampo de ouro — ou de um metal ainda mais precioso — que une a Nosso Senhor Jesus Cristo toda a criação, da qual Ela é o ápice e a suprema beleza.
Papel único na salvação das almas
Embora a maternidade divina, por si só, já granjeasse a Nossa Senhora o título de primeira das criaturas, para tanto não deixam de concorrer também as demais prerrogativas, virtudes e dons com que a Santíssima Trindade A enriqueceu, assim como todos os excelentíssimos méritos que Ela obteve em sua vida terrena, pela prática constante e crescente de um indizível amor a Deus, de uma incansável caridade para com o próximo.
Dizem os teólogos que do alto da Cruz, Nosso Senhor, cuja inteligência era infinita, conhecia todos os homens pelos quais Ele estava derramando seu preciosíssimo sangue. E que Ele via todos e cada um dos pecados que esses homens cometeriam até o fim do mundo, sofria por todos eles e, ao mesmo tempo, imolava sua vida para que os homens se salvassem e atingissem a bem-aventurança eterna.
Ora, unida de modo indissociável a seu Divino Filho, compartilhando com Ele todas as suas dores inenarráveis e, por isso mesmo, Co-Redentora do gênero humano, a Santíssima Virgem também nos conheceu a cada um de nós naquela ocasião. Para que a compaixão d’Ela fosse completa, Ela sofreu por nós com Jesus, e rezou pela remissão de cada um de nós, pedindo ao Redentor pelas almas de todos os seus filhos.
De maneira tal que, naquela hora em que o Verbo Encarnado antevia a multidão de pecados que se desprendia da história ao longo dos séculos, Ela suplicava o perdão para cada homem, e Ele os ia perdoando em atenção aos rogos de sua Mãe amantíssima. Somente Ela, sendo inocente, poderia nos merecer a indulgência que nós, pecadores, não merecemos.
E aí vemos o papel de Maria, ápice de toda a ordem da criação, como nossa Mãe e nossa Advogada.
Mãe de Cristo, Ela é Mãe de todos aqueles que nasceram para a graça do Filho de Deus. Mãe d’Ele, tornou-se Mãe dos homens, e Mãe particularmente solícita dos pobres pecadores. Nessa qualidade, Ela desempenha um papel que, de algum modo, o próprio Deus não poderia desempenhar. Porque Deus é Juiz e, uma vez ofendido, ultrajado, no rigor de sua justiça infinitamente perfeita, Ele tem de castigar. Porém, Maria é a Mãe, e todos sabemos que as mães não se arrogam o papel de julgar. Antes, são de modo natural as advogadas dos filhos. E por mais miserável que seja um destes, mais imundo, mais asqueroso, mais crápula, até mesmo em relação à própria mãe, ela o perdoa e pede ao pai que o perdoe também. Ela está solidária com o filho, ainda quando o pai o abomine por inteiro.
Assim é Nossa Senhora, a Mãe supremamente boa que reza por todos e cada um de nós. Ela, considerando que aquelas chagas abertas no santíssimo corpo de seu Divino Filho foram feitas em parte por meus pecados, suplicou-Lhe: “Meu Deus, meu Filho, pela minha inocência, pela minha virgindade, pelo amor que Vós sabeis que Vos tenho, rogo-Vos por ele. E essa ferida que sofreis por causa dele, peço-Vos, em nome dessa dor, que tenhais toda a clemência para com ele.”
E dessa forma cada um de nós foi perdoado. Então, por meio de Nossa Senhora Deus veio a nós no seu Nascimento na Gruta de Belém; por meio de Nossa Senhora, nós viemos a Deus no momento da Cruz, na hora da Paixão, nos sofrimentos da Redenção no alto do Calvário.
Divina Protetora que jamais nos abandona
Essa compaixão e esse desvelo maternais de Nossa Senhora, longe de esmorecerem com a morte de Jesus, redobraram e cresceram em intensidade, em desejo de abarcar o coração de todos os seus filhos, de levar a todas as almas os méritos infinitos da imolação regeneradora do Verbo Divino. Por isso, Ela continuou a ser a grande intercessora, a grande intermediária que nunca dos nuncas abandonou nenhuma espécie de homem.
A Santíssima Virgem reúne os Apóstolos depois que Nosso Senhor expirou no madeiro; agrupa-os, ainda, quando o Salvador parte para o Céu; Nossa Senhora está junto deles, no Pentecostes, quando vem o Espírito Santo; Ela acompanha a Igreja nos primeiros passos de sua vida e depois, ao longo de toda a sua existência. Maria é a suprema protetora da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Nossa Senhora esteve sempre presente nas batalhas que os católicos têm travado no volver da história, em defesa dos mais valiosos interesses da Fé. Ela se encontra presente nas lutas incessantes de cada homem contra seus defeitos, de maneira que, noite e dia, enquanto combatemos nossas imperfeições, nossos vícios e mazelas morais, enquanto nos esforçamos para adquirir maiores virtudes, ainda que não nos lembremos de Nossa Senhora, Ela está se lembrando de nós no alto do Céu. E está pedindo por nós, com uma misericórdia que nenhuma forma de pecado pode esgotar.
Com inteira propriedade, Ela é chamada pela Igreja de “Porta do Céu”. É por essa porta que todas as orações e súplicas dos homens chegam a Deus; e é também por essa porta que todas as graças e favores de Deus baixam do alto para os homens. Tudo vai ao Senhor, e tudo nos vem, por intermédio de nossa Mãe, Rainha e Medianeira Universal, Maria Santíssima.
Basta nos voltarmos para Ela, que seremos atendidos com uma profusão de bondade e de misericórdia inimagináveis. Nossa Senhora nos atende e nos limpa a alma, nos dá forças para praticarmos a virtude e nos transforma de pecadores em homens justos. Nunca nos faltará ânimo e vigor para praticar a Lei de Deus, desde que, cheios de esperança e filial devoção, o peçamos à Santíssima Virgem. Os que se voltam a Ela, tudo recebem d’Aquela que tudo pode.